Ministério da Economia avalia política do seguro defeso

06/08/2019

Em análise, Secap destaca distorções e propõe medidas de reformulação que garantam maior efetividade à política.

Falta de produção de dados sobre pesca há mais de dez anos, fiscalização da atividade sem articulação entre União e estados, períodos de proibição de pesca sem revisão e indícios de pagamento do benefício a indivíduos não elegíveis. O quadro faz parte dos resultados encontrados pela avaliação executiva sobre o Seguro-Desemprego do Pescador Artesanal (SDPA), o seguro defeso, produzido e divulgado nesta terça-feira (6/8) pela Secretaria de Avaliação, Planejamento, Energia e Loteria do Ministério da Economia (Secap/ME), por meio do Caderno de avaliação de gastos diretos: avaliação executiva do seguro defeso. 

O documento é a primeira avaliação executiva de políticas públicas financiadas por gastos diretos, que servirá como proposta de formato para as futuras avaliações do Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP). A íntegra do Caderno de Avaliação é apresentada no Relatório de Avaliação do Gasto Direto do Seguro Defeso. 

O que é o seguro defeso

O benefício do Seguro-Desemprego do Pescador Artesanal consiste no pagamento de um salário mínimo por mês durante o período de proibição da atividade de pesca – o chamado período de defeso – quando o pescador precisa interromper a atividade pesqueira. Ele é pago para aqueles que exercem profissionalmente a atividade na condição de pescador artesanal de maneira contínua, individualmente ou em regime de economia familiar, e foi criado como instrumento de proteção ambiental e de garantia da sustentabilidade econômica do pescador artesanal. 

Distorções

Na análise, a Secap destaca as fragilidades e distorções da política, entre as quais o fato de que, desde 2008, não se coletarem dados sobre pesca no Brasil. Além disso, evidencia o forte crescimento dos beneficiários no período de 1998 a 2018 – em torno de 16% ao ano - o que fez com que despesa da política saltasse de R$ 13 milhões para R$ 2,54 bilhões no período, um aumento de 29% por ano em média. Para a secretaria, os números são resultado da flexibilização dos requisitos de elegibilidade ao benefício, considerados pela avaliação como de fácil acesso e de difícil verificação. 

Como exemplo, a avaliação aponta para a forte discrepância entre os inscritos no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) na condição de pescador artesanal, os pescadores artesanais identificados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad e Pnad Contínua) do IBGE e os beneficiários do seguro defeso. Em 2018, por exemplo, o número de beneficiários  do seguro defeso foi mais do que o dobro dos pescadores artesanais identificados pelo IBGE no país. 

Além disso, segundo dados da Controladoria-Geral da União (CGU), mais da metade dos beneficiários fiscalizados não obtêm renda exclusivamente da pesca, um dos requisitos para recebimento do benefício. 

Medidas propostas

A publicação propõe medidas de reformulação e aprimoramento, de modo a garantir maior efetividade à política e o alcance efetivo do público para o qual foi criada. Dentre elas estão: o redesenho do Seguro-Desemprego do Pescador Artesanal (SDPA), por meio da recomendação da mudança da natureza jurídica do benefício, de trabalhista para transferência direta de renda – condicionando o recebimento do benefício a determinado limite de renda familiar per capita e à realização de serviço ambiental. Além disso, propõe a retomada das estatísticas de pesca no país e a alteração dos sistemas de informação, de modo a aprimorar a confiabilidade dos dados e possibilitar  a integração entre fiscalização federal e dos estados.  

É o que destaca o secretário de Avaliação, Planejamento, Energia e Loteria, Alexandre Manoel. “Com a divulgação desse relatório, estamos dando mais um passo rumo à institucionalização da avaliação de políticas públicas no Governo Federal. Esperamos que seu formato inspire futuras avaliações que serão analisadas pelo CMAP”. 

Já no plano da governança, o estudo propõe a criação do Comitê Gestor do SDPA para acompanhamento e implementação da política como um todo, propondo mudanças de desenho, execução e de aperfeiçoamento da política, bem como a centralização das ações de monitoramento e combate a fraudes.

Fonte: Ministério da Economia