Contadores, Advogados e Robôs

10/04/2018

Perspectivas sobre o futuro das profissões ligadas ao universo jurídico e contábil em face dos avanços da Inteligência Artificial

No último mês de janeiro, a Revista Veja publicou a matéria “Elas vão substituir você”, tratando das mudanças que ocorrerão no mercado de trabalho em virtude do crescimento progressivo do uso da Inteligência Artificial no ambiente de negócios de todo o mundo. Com chamada bastante contundente, o artigo afirma, dentre outros pontos, que até 2030, cerca de metade dos trabalhos existentes serão extintos, exigindo da população, maior potencial produtivo e capacidade de adaptação a este novo cenário.

Suscitando, inclusive, uma réplica do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), o artigo gerou intensos debates em diversos segmentos de trabalho do país, inclusive no meio jurídico e contábil. Acreditamos que, a despeito do tom imperativo do texto, a matéria levanta uma reflexão importante: tendo em vista o já iniciado processo de transformação digital que, em maior ou menor grau, já impacta em grande parte dos segmentos econômicos, trazendo benefícios indiscutíveis no plano da otimização de processos, mas também dúvidas sobre o futuro do emprego, o que podemos realmente esperar deste novo ambiente de trabalho que promete envolver, cada vez mais, humanos e máquinas? Trazendo a discussão para os universos contábil e jurídico, teremos, de fato, a extinção de profissões como as de advogado e contador? Como se preparar para este novo cenário e aumentar nosso valor profissional para o mercado? 

Robotização e o Mercado de Trabalho do Direito e da Contabilidade

Uma das principais bases do movimento de transformação digital que ganha o mercado consiste na automação de funções repetitivas que, sujeitas ao trabalho humano, podem incorrer em erros e na necessidade de retrabalho. Com o uso de tecnologias como a Inteligência Artificial, a precisão e agilidade em tais rotinas, inevitavelmente, se amplia. 

Neste sentido, dentro do Direito, questões que envolvem, por exemplo, a consulta de informações, organização de dados, gestão de contenciosos e ações mais burocráticas tendem a ser realizadas por máquinas, realidade que, aliás, já se faz presente e que pode, sim, contribuir para uma melhoria na velocidade da tratativa de processos e na redução de custos legais – para se ter uma ideia, o Brasil tem hoje mais de 79 milhões de processos parados na justiça e os gastos com o expediente jurídico superam 84 milhões.

Outras rotinas que envolvem desde a revisão de contratos até o estudo de dados visando qualificar que informações são mais importantes para um caso legal já vem sendo realizadas, com sucesso, por máquinas desenvolvidas por startups em todo o mundo. Se, por um lado, este movimento é positivo uma vez que potencializa a capacidade de atuação em processos de escritórios jurídicos, deixa-nos também a questão: até onde vai este movimento e qual será a finalidade dos advogados e juízes?

Para pesquisadores como Daniel Linna, professor de tecnologias jurídicas na Escola de Direito da Universidade de Michigan (EUA) – entrevistado por Veja em outra reportagem sobre Direito e Inteligência Artificial – o advogado tende a ser conduzido para uma posição cada vez mais de tomada de decisão, utilizando máquinas como suporte para o fornecimento de dados confiáveis e que aumentem a segurança dos clientes.

No âmbito contábil, o próprio CFC concorda que os contadores precisam avançar ainda mais em suas atividades, ampliando um know-how mais dinâmico, que se relaciona com outras profissões na realização de suas atividades, e decisório, “tirando proveito das novas tecnologias para a transformação do trabalho burocrático em uma função mais analítica, mais gerencial com a busca de apoiar os negócios.”

Aqui, também é reforçada a ideia do profissional enquanto aquele capaz de prover julgamentos profissionais relevantes, que interprete normas contábeis e a aplique de modo eficaz dentro de diferentes contextos. Indubitavelmente, isso exige – daqueles que querem sobreviver as mudanças do mercado – uma maior especialização, aprimoramento da técnica e do conhecimento analítico, visto que, ficar preso a rotinas burocráticas e pouco exigentes do ponto de vista intelectual parece uma receita para se tornar obsoleto em curto ou médio prazo.

O futuro do mercado de trabalho e nosso papel

A boa notícia é que nem só de previsões alarmistas vive o mercado. Consultorias especializadas em tecnologia como a Gartner, afirmam que até 2020, a Inteligência Artificial criará mais empregos do que eliminará, chegando a um número de criação de postos de trabalho na casa de 2 milhões em 2025. É importante ressaltar que, dentro deste cenário, se reforça a tese que expomos aqui: segundo a Gartner, enquanto o aumento da produtividade via automação tende a eliminar funções de nível médio e baixo, novas posições que envolvem habilidades altamente qualificadas e cargos de gerenciamento irão surgir.

Sendo assim, o que o futuro parece nos reservar é muito mais um processo de adaptação, em que se tornarão relevantes aqueles que souberem trabalhar habilidades analíticas, decisórias e, sobretudo, sejam capazes de atuar em conjunto com tecnologias como as baseadas em Inteligência Artificial – mas, também, outras ferramentas desenvolvidas no movimento contínuo da transformação digital.

Para tanto, é preciso iniciar, desde já, uma caminhada em prol de uma atuação mais qualificada, especializada e aberta a inovação. E isso vale, sem dúvidas, também para os segmentos contábil e jurídico. Equipes menores serão mais eficientes nestas áreas de atuação, haja vista o “exército de robôs”. O foco será no julgamento da análise dos dados, e não nos dados em si. É justo ainda ressaltar um papel educacional, tanto por parte das empresas quanto do poder público, em preparar trabalhadores para os desafios de um mercado fortemente movido pela transformação digital. No cenário das previsões alarmistas, é preciso ser racional e acertar nosso passo para um mundo em que máquinas e humanos trabalharam lado a lado. Aliás, já trabalham.

*Carlos Miyahira é sócio da Grounds e especialista na área contábil, com experiências em processos de aquisição e venda de empresas e operações, do ponto de vista do Comprador (Due Diligence) e do Vendedor (Vendor Due Diligence), e em consultoria no processo de pós-aquisição.

Fonte: IDEIACOMM